Momentos especiais pra você
Jul
29

Saudade

meu avô já foi esse moço aí da foto. parecido com o meu irmão, bastante. também com meu tio.

a vida foi violenta com ele, a morte não menos.

nascido em país esfacelado, refugiado de guerra sem fim, imigrante em terra desconhecida.

há nove anos o atropelamento. chamada às pressas, eu, ele, o siate. perguntou pela minha avó, pediu para ir para casa. fomos para o hospital. o que se faz quando se deixa de atender o último pedido?

vi sua consciência acabar na fria mesa de metal em que o colocaram semi despido à espera de exames. já não me reconhecia. passou ainda alguns dias na uti, onde nunca fui. ainda escuto o último pedido…

minha avó até hoje, todos os dias, fala dele. a ponte e o rio do primeiro encontro perdidos no passado. a história deles se tornando pálida.

sempre me chamava para ver televisão ao seu lado, abrindo o braço e me acomodando no sofá. telecatch ou westerns. nada recomendável para a menininha de quatro anos, mas o melhor lugar do mundo.

um dia o herói da luta, apesar de vencer horrendo vilão disfarçado, foi declarado derrotado. entre divertido e assustado com a minha reação, não conseguiu me convencer de que se tratava de faz de conta.

minhas lágrimas pela injustiça foram tantas que talvez tenham até definido o caminho da profissão. demorou um pouco até que eu aprendesse que armações e vitórias forjadas são constantes. ele já sabia, desde menino.

quando se foi tudo se desorganizou, inclusive o pensamento da minha mãe. aos poucos, as mudanças, as transformações, o novo. a análise, a falta, o desejo, o movimento, as conquistas, essas tantas vezes dedicadas a ele.

sempre dizia que quando todos os netos se formassem iria comparar as notas para ver quem tinha se saído melhor. esses dias eu e meu irmão declaramos vencedora a prima mais nova, que nem sabia do desafio. em honra de sua memória, talvez. uma forma de atender o último desejo… o possível.

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