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meu avô já foi esse moço aí da foto. parecido com o meu irmão, bastante. também com meu tio.
a vida foi violenta com ele, a morte não menos.
nascido em país esfacelado, refugiado de guerra sem fim, imigrante em terra desconhecida.
há nove anos o atropelamento. chamada às pressas, eu, ele, o siate. perguntou pela minha avó, pediu para ir para casa. fomos para o hospital. o que se faz quando se deixa de atender o último pedido?
vi sua consciência acabar na fria mesa de metal em que o colocaram semi despido à espera de exames. já não me reconhecia. passou ainda alguns dias na uti, onde nunca fui. ainda escuto o último pedido…
minha avó até hoje, todos os dias, fala dele. a ponte e o rio do primeiro encontro perdidos no passado. a história deles se tornando pálida.
sempre me chamava para ver televisão ao seu lado, abrindo o braço e me acomodando no sofá. telecatch ou westerns. nada recomendável para a menininha de quatro anos, mas o melhor lugar do mundo.
um dia o herói da luta, apesar de vencer horrendo vilão disfarçado, foi declarado derrotado. entre divertido e assustado com a minha reação, não conseguiu me convencer de que se tratava de faz de conta.
minhas lágrimas pela injustiça foram tantas que talvez tenham até definido o caminho da profissão. demorou um pouco até que eu aprendesse que armações e vitórias forjadas são constantes. ele já sabia, desde menino.
quando se foi tudo se desorganizou, inclusive o pensamento da minha mãe. aos poucos, as mudanças, as transformações, o novo. a análise, a falta, o desejo, o movimento, as conquistas, essas tantas vezes dedicadas a ele.
sempre dizia que quando todos os netos se formassem iria comparar as notas para ver quem tinha se saído melhor. esses dias eu e meu irmão declaramos vencedora a prima mais nova, que nem sabia do desafio. em honra de sua memória, talvez. uma forma de atender o último desejo… o possível.